Definição e Classificação do TRALI (Tipo I e II)


1. DEFINIÇÃO DE TRALI – CONCEITO ATUALIZADO

TRALI é uma síndrome clínica pulmonar aguda não cardiogênica que ocorre em associação temporal com uma transfusão, caracterizada por:

  • Início abrupto de hipoxemia

  • Infiltrado pulmonar bilateral não explicado por sobrecarga ou disfunção cardíaca

  • Ocorre dentro de 6 horas após a administração de sangue ou hemocomponentes

Segundo o consenso internacional da Canadian Consensus Conference on TRALI (2019) e a ISBT (2021):

“TRALI é uma lesão pulmonar aguda associada à transfusão, manifestada por edema pulmonar não cardiogênico, que surge dentro de 6 horas após a transfusão, em pacientes com ou sem fatores de risco para lesão pulmonar.”


2. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS INTERNACIONAIS

  Critérios clínicos para TRALI – Adaptados da Berlin Definition para SDRA:

  • Início agudo (≤ 6h da transfusão)

  • Hipoxemia documentada:

    • PaO₂/FiO₂ ≤ 300 mmHg

    • ou SatO₂ < 90% em ar ambiente

  • Infiltrado alveolar bilateral ao RX de tórax ou TC

  • Ausência de evidência objetiva de sobrecarga volêmica ou disfunção cardíaca

  • Exclusão de outras causas plausíveis de edema pulmonar


3. CLASSIFICAÇÃO DE TRALI – TIPO I E TIPO II (ISBT 2021)

A nova classificação introduzida pela ISBT visa distinguir os eventos isolados daqueles que ocorrem em pacientes com doença pulmonar pré-existente ou lesão inflamatória ativa.

 TRALI Tipo I – Clássico (puro)

CritérioDetalhes
Paciente sem fatores de risco prévios para lesão pulmonarNão há sepse, trauma, ventilação invasiva, etc.
Início ≤ 6h da transfusãoSintomas respiratórios agudos
Edema pulmonar não cardiogênico documentadoInfiltrado bilateral, sem cardiomegalia
Exclusão de outras causasNecessário descartar pneumonia, TEP, TACO

 TRALI Tipo II – Modificado (composto)

CritérioDetalhes
Paciente com fatores predisponentes de lesão pulmonar aguda (ex: sepse, cirurgia, trauma, pancreatite, aspiração)Condição basal crítica ou instável
Estabilidade respiratória documentada nas 12h pré-transfusãoEstava estável antes do evento
Deterioração aguda após transfusãoReversão de melhora clínica ou súbita descompensação
Impossibilidade de explicar o evento apenas pelo quadro clínico prévioDeve ser interpretado como multifatorial, mas a transfusão é considerada gatilho

💡 Importante: A diferenciação entre TRALI tipo I e II não altera o tratamento imediato, mas impacta a investigação laboratorial e a hemovigilância.


4. MODELO FISIOPATOLOGICO – TWO HIT MODEL

A fisiopatologia do TRALI é explicada por um modelo em dois tempos (“two-hit”):

 Primeiro Hit (predisposição)

  • Ativação endotelial e de neutrófilos causada por fatores clínicos do paciente (ex: sepse, cirurgia, trauma)

 Segundo Hit (transfusão)

  • Transfusão de hemocomponente contendo:

    • Anticorpos anti-HLA classe I ou II

    • Anticorpos anti-HNA (neutrofílicos)

    • Substâncias bioativas acumuladas no plasma (citocinas, lipídios)

  Essa combinação resulta em:

  • Ativação e sequestro de neutrófilos no leito capilar pulmonar

  • Aumento da permeabilidade endotelial

  • Formação de edema alveolar proteico

  • Lesão pulmonar aguda → quadro clínico de SDRA


5. PERFIL DOS HEMOCOMPONENTES ASSOCIADOS AO TRALI

ComponenteRisco relativo
Plasma fresco congeladoElevado
Concentrado de plaquetas (principalmente por aférese)Elevado
Concentrado de hemáciasBaixo/moderado (especialmente se leucorreduzido)
CrioprecipitadoMuito baixo

 Doadores mulheres multíparas são mais frequentemente implicadas na origem dos casos de TRALI por presença de anticorpos anti-HLA adquiridos na gestação.


6. CRITÉRIOS DIFERENCIAIS TRALI X TACO – QUADRO COMPARATIVO SINTÉTICO

CaracterísticaTRALITACO
MecanismoLesão imunomediadaSobrecarga volêmica
HipoxemiaGraveModerada a grave
PANormal ou baixaElevada
RX de tóraxInfiltrado bilateral alveolarCongestão vascular, cardiomegalia
BNPNormal ou discretamente ↑Aumentado (> 500 pg/mL)
Resposta a diuréticoAusenteRápida
FebreComumRara
Anticorpos anti-HLA/HNAPositivos em até 80%Ausentes

7. CONCLUSÃO

  • TRALI é a principal causa imunomediada de morte associada à transfusão.

  • Pode ocorrer mesmo em pacientes saudáveis (Tipo I), ou atuar como gatilho de descompensação em pacientes críticos (Tipo II).

  • A diferenciação com TACO é essencial para conduta adequada e notificação.

  • A nova classificação ISBT de TRALI melhora a compreensão clínica e fortalece a vigilância.


8. REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  • Popovsky MA. Transfusion Reactions, AABB, 4ª Edição

  • ISBT. Definitions and Classification of TRALI – Consensus Document 2021

  • Roback JD et al. Technical Manual, AABB, 20ª Edição

  • SHOT Annual Reports – UK 2022

  • Vlaar APJ, Juffermans NP. TRALI Review. Blood, 2013

  • Toy P, Gajic O et al. TRALI Consensus Definitions. Crit Care Med, 2019

  • ANVISA. Boletins de Hemovigilância 2022